A discussão sobre a entrada de medicamentos no varejo alimentar ganhou velocidade nas últimas semanas, após a lei ser sancionada em 23 de março de 2026. Natural, considerando o impacto potencial dessa mudança no mercado.
Mas, antes de qualquer análise estratégica, é importante nivelar o entendimento sobre o que, de fato, está sendo proposto. A legislação não trata de liberação irrestrita de venda de medicamentos em supermercados. Ela estabelece que essa operação deve seguir os mesmos critérios de uma farmácia:
- presença obrigatória de farmacêutico durante todo o horário de funcionamento;
- controle e rastreabilidade dos medicamentos;
- cumprimento integral das exigências sanitárias e regulatórias;
- delimitação clara da área destinada à dispensação.
Ou seja, não se trata de uma extensão de gôndola. Trata-se da implementação de uma operação farmacêutica completa dentro de um novo ambiente de varejo. Esse ponto é fundamental, porque ele redefine a natureza da discussão.
Não estamos falando apenas de expansão de canal. Estamos falando de uma nova unidade de negócio para o varejo alimentar, com um aumento relevante de complexidade operacional, regulatória e comercial.
Ao mesmo tempo, essa mudança acontece em um contexto em que o varejo já passa por uma reconfiguração importante. Além de temas de legislações que estão em andamento no Brasil, há a perspectiva do novo consumidor, que opera de forma integrada entre canais, com expectativa de continuidade entre digital e físico e com menor tolerância a fricções na jornada. Nesse cenário, a forma de estruturar a operação passa a ser determinante para o resultado.
O mix como decisão estrutural
A rentabilidade desse modelo não está na presença da categoria, mas na forma como ela é construída e gerida ao longo do tempo. Na prática, as decisões relacionadas ao mix deixam de ser táticas e passam a ser estruturais. Um mix eficiente nesse contexto precisa considerar:
- entendimento aprofundado sobre a estrutura do mercado farmacêutico, considerando categorias e subcategorias;
- estudo de rentabilidade entre mix;
- o papel da farmácia dentro do seu território;
- a missão de compra do shopper naquele ambiente (supermercado);
- a integração com o restante da operação do varejo;
- a capacidade de execução no ponto de venda e o equilíbrio entre giro, margem e recorrência.
Construção conjunta entre indústria e varejo
Diferente de outros momentos de expansão de categoria, aqui não há espaço para decisões isoladas. A indústria farmacêutica precisa compreender o papel desse novo canal e adaptar sua estratégia de portfólio, ativação e suporte. O varejo alimentar, por sua vez, precisa estruturar a operação de forma consistente, garantindo que o mix não aumente apenas a oferta, mas gere resultado sustentável.
Se essa construção for bem conduzida, indústria e varejo passam a desenvolver, de forma conjunta, um entendimento mais claro de como tracionar esse novo canal, com maior previsibilidade de demanda, evolução consistente de resultado e crescimento estruturado, sem gerar desequilíbrios na operação ou no mercado.
Em um ambiente mais regulado e mais complexo, a margem não é resultado apenas de preço ou volume. Ela é consequência direta de decisões estruturais, especialmente relacionadas ao mix e à execução. Por isso, a discussão sobre esse novo modelo não deve se limitar à viabilidade da operação. Ela precisa avançar para a qualidade dessa construção.
O mercado farmacêutico brasileiro já é um dos mais relevantes do mundo, com crescimento consistente e aumento de demanda impulsionado por fatores demográficos e de acesso à saúde. A entrada do varejo alimentar nesse contexto não reduz essa relevância. Ela amplia a necessidade de organização, integração e inteligência na operação.
No fim, mais do que discutir a possibilidade de venda, o ponto central passa a ser outro: quem conseguirá estruturar um modelo consistente, eficiente e rentável dentro desse novo cenário. Porque a oportunidade existe, mas é a forma de execução que vai determinar o resultado.
